Cerveja feita a partir de dejetos de suínos pode parecer improvável, mas já é uma realidade experimental em Santa Catarina. Pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Concórdia, no Oeste do estado, desenvolveram um processo inovador que transforma resíduos da suinocultura em água potável, utilizada na produção de cerveja artesanal.
O projeto é resultado de mais de uma década de estudos voltados à sustentabilidade ambiental e ao reaproveitamento de recursos. A iniciativa surgiu a partir de uma demanda atual da cadeia produtiva: o alto consumo de água na fabricação de cerveja aliado à necessidade de soluções ambientalmente responsáveis para o destino dos dejetos gerados pela suinocultura, atividade forte na região.
Produção experimental e degustação científica
Ao todo, foram produzidos 40 litros da cerveja, de forma totalmente experimental. A bebida foi apresentada e disponibilizada para degustação em eventos científicos realizados ao longo de 2024 e 2025, com o objetivo de avaliar a aceitação do público e coletar percepções sensoriais e sociais sobre o produto.
Segundo o pesquisador Ricardo Steinmetz, coordenador do Laboratório de Estudos de Biogás da Embrapa Suínos e Aves, a experiência revelou um interesse maior do que o esperado.
“Nos chamou atenção que a maioria das pessoas demonstrou curiosidade em conhecer a cerveja, mesmo sabendo que a água veio do dejeto de suíno”, afirmou.
A próxima etapa do projeto é a captação de recursos para viabilizar uma nova fase, com foco na possível comercialização da bebida a partir de 2026.
Avaliação técnica e consumo de água
O mestre cervejeiro Fernando Cavassin, que participou da degustação, destacou o potencial sustentável da iniciativa. Segundo ele, a produção de um litro de cerveja exige entre 10 e 12 litros de água, o que torna alternativas de reúso extremamente relevantes para o setor.
“É uma água que não trouxe nenhum aspecto sensorial negativo para o produto. Muito bom”, avaliou.
Processo rigoroso até a potabilidade
O caminho até transformar dejetos de suínos em água própria para consumo humano envolve um processo técnico rigoroso, dividido em várias etapas.
Inicialmente, os dejetos passam por um sistema de tratamento na própria granja, o Sistema de Tratamento de Efluentes da Suinocultura (Sistrates). Nessa fase, ocorre a recuperação de energia e nutrientes, tornando a água apta para descarte ambiental.
Em seguida, essa água é considerada própria para reúso, podendo ser utilizada em irrigação, piscicultura ou em processos internos da granja, como limpeza de instalações. No projeto da Embrapa, porém, ela passou por um tratamento adicional em laboratório, até atingir os padrões de potabilidade exigidos para consumo humano.
“O processo é semelhante ao de uma estação de tratamento de água municipal, com clarificação, filtração e análises rigorosas, só que realizado em menor escala”, explicou Steinmetz.
O que são os dejetos de suínos
Os dejetos de suínos, também chamados de efluentes da suinocultura, são compostos por fezes, urina, água utilizada na lavagem das instalações e resíduos do manejo dos animais. Apesar da aparência escura, eles contêm entre 94% e 99% de água.
Sem tratamento adequado, o uso desse material é limitado. Com tecnologia e controle, no entanto, ele pode se transformar em um recurso estratégico, reduzindo impactos ambientais e ampliando possibilidades de reúso.
Segundo a Embrapa, o crescimento da produção suinícola aumenta o desafio de destinação correta desses resíduos, o que reforça a importância de projetos inovadores como esse.
A pesquisa demonstra que ciência, sustentabilidade e inovação podem caminhar juntas, abrindo novas possibilidades para o futuro da produção agroindustrial no Brasil.





